sábado, 15 de agosto de 2026

O Cérebro Adolescente que Mata: o que revela a neurociência forense

Casos raros mas devastadores de homicídio cometidos por jovens levantam sempre a mesma pergunta: porquê? Um capítulo do livro Forensic Neuroscience and Violence, do perito forense Albino Manuel Gomes, reúne décadas de investigação em neurociência para mostrar que, por trás destes atos extremos, há muitas vezes um cérebro adolescente marcado por trauma, doença mental e dano neurológico.

Um fenómeno raro, mas nunca isolado

A probabilidade de um adolescente matar alguém é muito baixa. Mas quando acontece, raramente é um ato isolado ou repentino. A investigação mostra que o homicídio juvenil resulta do cruzamento entre fatores de fundo — como disfunção familiar, abuso físico grave e psicopatologia nos pais — e fatores do momento, como o consumo de substâncias, o acesso a armas e a pressão do grupo de amigos. Um estudo com mais de 1500 jovens em Pittsburgh, nos Estados Unidos, mostrou que rapazes com quatro ou mais fatores de risco tinham 14 vezes mais probabilidade de cometer homicídio do que jovens já violentos, mas com menos fatores de risco.

Antes do ato em si, há normalmente um longo historial de agressividade. Estudos mostram que a esmagadora maioria dos jovens que matam já tinha sido violenta antes — e que muitos vivem também sentimentos de desespero, perda e, por vezes, ideação suicida. Não por acaso, comportamento suicida e homicida coexistem com frequência na mesma pessoa.

O que mostram as imagens cerebrais

A neuroimagem começa a dar corpo a estas observações clínicas. Um estudo comparou jovens reclusos condenados por homicídio com outros jovens reclusos não homicidas e encontrou, nos primeiros, menos massa cinzenta em regiões dos lobos temporais — entre elas o hipocampo, ligado à memória, e a ínsula, envolvida na perceção das próprias emoções e das dos outros. Estas são precisamente as zonas do cérebro que nos ajudam a interpretar intenções alheias, avaliar o risco de uma situação e sentir empatia. Outro estudo encontrou ainda diferenças no córtex orbitofrontal, uma região ligada à regulação emocional, à impulsividade e à tomada de decisões sociais.

Curiosamente, fatores muitas vezes associados popularmente à violência juvenil — como dificuldades de aprendizagem, défice de atenção ou incapacidade intelectual — não se revelaram, por si só, preditores de homicídio. O que distingue verdadeiramente os jovens que matam de outros igualmente violentos parece ser antes um quociente de inteligência mais baixo combinado com maior exposição à violência ao longo da vida.

Quando a dor se volta para dentro ou para fora

Um dos aspetos mais reveladores da investigação é a proximidade entre comportamento suicida e homicida. Estudos de ressonância magnética mostram que adolescentes com pensamentos suicidas ativam de forma diferente o córtex pré-frontal — a região responsável pelo controlo consciente das emoções — quando tentam regular sentimentos negativos. Outros trabalhos associam tentativas de suicídio a menos massa cinzenta no hipocampo e no cerebelo, e a uma comunicação alterada entre a amígdala (o "alarme" emocional do cérebro) e o córtex pré-frontal. Em ambos os casos — violência dirigida a si próprio ou aos outros — o denominador comum parece ser um sistema de regulação emocional que não funciona como deveria.

Perturbação do comportamento: sinais precoces no cérebro

Vários estudos com jovens diagnosticados com perturbação do comportamento — um padrão persistente de agressividade, desrespeito por regras e insensibilidade emocional — encontraram também reduções de massa cinzenta em áreas ligadas ao controlo dos impulsos e ao processamento emocional, incluindo a amígdala, o hipocampo e o córtex orbitofrontal. A nível neuropsicológico, estes jovens revelam frequentemente dificuldade em reconhecer expressões faciais de medo ou tristeza nos outros e défices nas chamadas funções executivas — a capacidade de planear, manter a atenção e travar impulsos.

Esquizofrenia na adolescência: o elo mais preocupante

O capítulo dedica especial atenção à esquizofrenia de início precoce, que surge já na infância ou adolescência. Pessoas com perturbações do espetro da esquizofrenia têm entre quatro a oito vezes mais probabilidade de cometer um ato violento do que a população em geral, e estima-se que a psicose crónica esteja na origem de 6 a 15% dos homicídios cometidos por jovens. A esquizofrenia é hoje entendida como uma perturbação do próprio desenvolvimento cerebral: estudos que acompanharam jovens doentes ao longo de vários anos, com ressonâncias magnéticas repetidas, documentaram uma perda progressiva de massa cinzenta que começa nas regiões parietais e se espalha depois para os lobos temporais e para o córtex pré-frontal — exatamente as áreas que continuam a amadurecer durante a adolescência e que são responsáveis pelo autocontrolo e pelo juízo crítico.

Por outras palavras: na esquizofrenia de início precoce, o dano cerebral atinge em cheio as mesmas regiões que, num cérebro saudável, ainda estão a desenvolver-se para permitir travar impulsos e avaliar consequências. É esta coincidência entre uma doença psiquiátrica grave e um cérebro imaturo que os autores apontam como fator de risco acrescido — sobretudo quando surgem, em simultâneo, abuso, negligência ou consumo de substâncias.

O que isto significa, afinal

Nenhum destes achados serve para prever, e muito menos justificar, um ato de violência extrema — a esmagadora maioria dos jovens com estes mesmos fatores de risco nunca cometerá um crime. O valor desta investigação está antes em ajudar a compreender que, por detrás de um homicídio cometido por um adolescente, há quase sempre uma história longa: de trauma, de doença mental não tratada e de um cérebro que, literalmente, ainda não terminou de se construir. Reconhecer estes sinais mais cedo — e não apenas depois da tragédia — é, segundo os investigadores, o verdadeiro caminho para a prevenção.

Baseado no Capítulo, "Adolescent Homicide and the Brain", de Albino Manuel Gomes, publicado em Forensic Neuroscience and Violence (John Wiley & Sons, 2026).