domingo, 1 de fevereiro de 2026


 


 

Seção da Associação Nacional de Enfermagem Forense


 

Projeto Aikido na Prevenção da Violência Interpessoal


 

Crianças que matam

 A neurociência forense contribui para compreender como alterações no desenvolvimento cerebral, na regulação emocional e na empatia podem aumentar o risco de uma criança ou adolescente cometer homicídio, sem reduzir isso a um determinismo biológico.

Principais achados neurobiológicos: 
- Estudos com adolescentes homicidas mostram redução de substância cinzenta em regiões temporais bilaterais (hipocampo, giro temporal superior, parahipocampo, ínsula posterior), áreas ligadas à regulação da emoção, empatia e inibição de impulsos agressivos.
- Essas diferenças estruturais permitem, em modelos de machine learning, classificar jovens homicidas versus outros delinquentes com acurácia em torno de 78–81%, sugerindo um padrão neurobiológico de maior risco, embora não seja um “teste” individual de predição.
Transtornos de conduta e traços insensíveis: 
- Crianças com problemas de conduta e traços insensíveis‑desprovidos de emoção (callous‑unemotional, CU) apresentam respostas neurais reduzidas a expressões de medo e tristeza de outras pessoas, indicando falhas na codificação neural da dor alheia e da culpa.
- Esses traços CU associam‑se a alterações em circuitos de empatia e moralidade (amígdala, córtex pré‑frontal, regiões temporais) e aumentam significativamente o risco de agressão grave, delinquência persistente e comportamentos violentos na adolescência.
Papel do trauma e da violência precoce:
- Crianças que mais tarde cometem homicídio frequentemente apresentam combinação de disfunções neurológicas centrais (por exemplo, dano cerebral, epilepsia, alterações cognitivas) com experiências de abuso físico severo, psicose parental e exposição crónica a violência.
- Modelos biopsicossociais sugerem que trauma infantil grave e prolongado pode levar a alterações neurobiológicas (eixo de stress, desenvolvimento de estruturas corticais e límbicas) que facilitam respostas agressivas rápidas, brutais e desproporcionais quando o jovem se sente ameaçado.
Contribuições da neurociência forense na prática: 
- Na avaliação pericial, exames neuropsicológicos e, em alguns casos, neuroimagem podem ajudar a documentar défices de funções executivas, memória, linguagem, regulação emocional e empatia em crianças/adolescentes autores de homicídio, compondo o quadro de imputabilidade e periculosidade.
- Em políticas de justiça juvenil, a evidência de imaturidade neurodesenvolvimental e de plasticidade cerebral tem sido usada para defender respostas menos punitivas e mais reabilitadoras para homicídios juvenis, sublinhando a necessidade de intervenções terapêuticas intensivas em vez de mera reclusão prolongada.
Limites e ética - 
- As associações entre cérebro e violência são probabilísticas: diferenças estruturais ou funcionais aumentam risco, mas não permitem “prever” com certeza que uma criança vá matar, nem justificam rotulagem precoce irreversível.
- Neurociência forense responsável implica integrar achados cerebrais com história de vida, contexto social e avaliação clínica, evitando tanto o reducionismo biológico quanto a negação do papel do ambiente e das políticas públicas na gênese da violência juvenil.

sábado, 31 de janeiro de 2026

Causa de Morte em Incendios

Causa de morte em incêndios  

Em incêndios em espaços confinados, a maioria das mortes ocorre por inalação de fumo tóxico e asfixia/hipoxia, mais do que por queimaduras cutâneas extensas. Em termos forenses, costuma tratar‑se de um mecanismo combinado: hipoxia ambiental, intoxicação por gases (sobretudo monóxido de carbono e cianeto) e lesão térmica/ química das vias aéreas.

 Mecanismos principais

- Hipoxia ambiental / asfixia - Em espaços fechados o fogo consome rapidamente o oxigénio, aumentando CO\₂ e outros gases, levando a hipóxia tisular e acidose, que são o mecanismo final de morte na inalação de fumo. A redução de O₂ no ambiente provoca perda de consciência em poucos minutos, seguida de paragem cardiorrespiratória se a vítima não for removida.

- Intoxicação por monóxido de carbono (CO): O CO é o principal responsável pelas mortes rápidas em fogos, competindo com o oxigénio pela hemoglobina com afinidade 200–250 vezes superior, formando carboxi‑hemoglobina e causando asfixia interna. Estudos de patologia forense indicam que, na maioria das mortes em incêndios, a causa imediata é a inalação de CO e outros produtos de combustão, mais do que as queimaduras externas.

- Intoxicação por cianeto de hidrogénio (HCN)*: A combustão de materiais sintéticos (plásticos, espumas, têxteis) em espaços fechados liberta cianeto, que bloqueia a utilização de oxigénio a nível mitocondrial. Em incêndios em ambientes interiores, uma proporção significativa de vítimas apresenta níveis tóxicos de cianeto, podendo este ser co‑responsável pela incapacidade rápida e morte, de forma independente ou sinérgica com o CO.

Lesão das vias aéreas e pulmão

- Lesão térmica das vias aéreas superiores**: A inalação de gases superaquecidos provoca queimaduras da naso‑orofaringe e laringe, com edema e obstrução aguda da via aérea, que pode levar a insuficiência respiratória precoce. Estes casos associam‑se frequentemente a queimaduras faciais, fuligem em boca/nariz e rouquidão ou estridor antes da paragem respiratória.

- Lesão química e inflamatória do trato respiratório**: Partículas de fumo e irritantes (aldeídos, ácidos, óxidos de azoto, etc.) atingem traqueia, brônquios e alvéolos, causando broncoespasmo, edema, aumento de secreções e atelectasias. Estas alterações podem originar insuficiência respiratória aguda, frequentemente com agravamento nas primeiras 24–72 horas, mesmo em vítimas inicialmente conscientes.

Queimaduras cutâneas e choque

- Queimaduras extensas e choque: Em alguns casos, sobretudo em vítimas resgatadas vivas, o óbito tardio decorre de choque hipovolémico e séptico devido a queimaduras profundas de grande superfície corporal. Nestes doentes, a inalação de fumo agrava a mortalidade, sendo frequente a combinação de insuficiência respiratória e falência multiorgânica.

- Hipertermia e lesão térmica sistémica: A exposição prolongada a temperaturas muito elevadas em compartimentos fechados pode contribuir para falência cardiovascular e térmica, embora esta causa isolada seja menos comum do que a asfixia por fumo.

Particularidades dos espaços confinados

- Acumulação de gases tóxicos: Casas, quartos, caves, viaturas e outros recintos fechados favorecem concentrações elevadas de CO e cianeto, com grande proporção de vítimas apresentando níveis letais destes tóxicos. Isto explica porque 60–80% das mortes súbitas no local de incêndios, sobretudo em espaços fechados, são atribuídas à inalação de fumo.

- Rápida incapacidade e impossibilidade de fuga: A combinação de hipoxia, CO, cianeto e calor provoca confusionismo, alterações do estado de consciência e colapso em poucos minutos, impedindo a vítima de encontrar saídas. Em contexto pericial, fuligem em vias aéreas, níveis elevados de carboxi‑hemoglobina e cianeto sanguíneo, associados a sinais de vitalidade, são achados típicos em mortes por incêndio em espaço confinado.