sábado, 31 de janeiro de 2026

Causa de Morte em Incendios

Causa de morte em incêndios  

Em incêndios em espaços confinados, a maioria das mortes ocorre por inalação de fumo tóxico e asfixia/hipoxia, mais do que por queimaduras cutâneas extensas. Em termos forenses, costuma tratar‑se de um mecanismo combinado: hipoxia ambiental, intoxicação por gases (sobretudo monóxido de carbono e cianeto) e lesão térmica/ química das vias aéreas.

 Mecanismos principais

- Hipoxia ambiental / asfixia - Em espaços fechados o fogo consome rapidamente o oxigénio, aumentando CO\₂ e outros gases, levando a hipóxia tisular e acidose, que são o mecanismo final de morte na inalação de fumo. A redução de O₂ no ambiente provoca perda de consciência em poucos minutos, seguida de paragem cardiorrespiratória se a vítima não for removida.

- Intoxicação por monóxido de carbono (CO): O CO é o principal responsável pelas mortes rápidas em fogos, competindo com o oxigénio pela hemoglobina com afinidade 200–250 vezes superior, formando carboxi‑hemoglobina e causando asfixia interna. Estudos de patologia forense indicam que, na maioria das mortes em incêndios, a causa imediata é a inalação de CO e outros produtos de combustão, mais do que as queimaduras externas.

- Intoxicação por cianeto de hidrogénio (HCN)*: A combustão de materiais sintéticos (plásticos, espumas, têxteis) em espaços fechados liberta cianeto, que bloqueia a utilização de oxigénio a nível mitocondrial. Em incêndios em ambientes interiores, uma proporção significativa de vítimas apresenta níveis tóxicos de cianeto, podendo este ser co‑responsável pela incapacidade rápida e morte, de forma independente ou sinérgica com o CO.

Lesão das vias aéreas e pulmão

- Lesão térmica das vias aéreas superiores**: A inalação de gases superaquecidos provoca queimaduras da naso‑orofaringe e laringe, com edema e obstrução aguda da via aérea, que pode levar a insuficiência respiratória precoce. Estes casos associam‑se frequentemente a queimaduras faciais, fuligem em boca/nariz e rouquidão ou estridor antes da paragem respiratória.

- Lesão química e inflamatória do trato respiratório**: Partículas de fumo e irritantes (aldeídos, ácidos, óxidos de azoto, etc.) atingem traqueia, brônquios e alvéolos, causando broncoespasmo, edema, aumento de secreções e atelectasias. Estas alterações podem originar insuficiência respiratória aguda, frequentemente com agravamento nas primeiras 24–72 horas, mesmo em vítimas inicialmente conscientes.

Queimaduras cutâneas e choque

- Queimaduras extensas e choque: Em alguns casos, sobretudo em vítimas resgatadas vivas, o óbito tardio decorre de choque hipovolémico e séptico devido a queimaduras profundas de grande superfície corporal. Nestes doentes, a inalação de fumo agrava a mortalidade, sendo frequente a combinação de insuficiência respiratória e falência multiorgânica.

- Hipertermia e lesão térmica sistémica: A exposição prolongada a temperaturas muito elevadas em compartimentos fechados pode contribuir para falência cardiovascular e térmica, embora esta causa isolada seja menos comum do que a asfixia por fumo.

Particularidades dos espaços confinados

- Acumulação de gases tóxicos: Casas, quartos, caves, viaturas e outros recintos fechados favorecem concentrações elevadas de CO e cianeto, com grande proporção de vítimas apresentando níveis letais destes tóxicos. Isto explica porque 60–80% das mortes súbitas no local de incêndios, sobretudo em espaços fechados, são atribuídas à inalação de fumo.

- Rápida incapacidade e impossibilidade de fuga: A combinação de hipoxia, CO, cianeto e calor provoca confusionismo, alterações do estado de consciência e colapso em poucos minutos, impedindo a vítima de encontrar saídas. Em contexto pericial, fuligem em vias aéreas, níveis elevados de carboxi‑hemoglobina e cianeto sanguíneo, associados a sinais de vitalidade, são achados típicos em mortes por incêndio em espaço confinado.